O caminho não era fácil. A estrada de terra esburacada que o levava à cidade, alcatroada há pouco tempo, estava alagada pela água da chuva que caía.
O suor escorria-lhe desenfreadamente pelo rosto, lentamente, como se cada gota se agarrasse a si com o desespero de quem não quer deixar partir um amante, e a sede provocada pelo intenso calor desse fim de tarde de sol fazia crescer nele uma vontade terrível de parar no café perto de sua casa. Mas ainda era cedo, talvez depois de almoço.
No entanto, o facto de não existir absolutamente nada à sua volta impelia-o a continuar.
Wanderlav chegava à cidade extenuado. Entrou na rua principal como um guerreiro que volta de uma batalha, como um maltrapilho. Entrou na clínica e dirigiu-se à recepção. Estranhou a rapariga que estava no atendimento.
“Olá Wanderlev, hoje está muito bem arranjado, de fatinho. O que o traz por cá?”
“Fiquei com uma dúvida depois de ler o resultado das minhas análises.”
“Então aguarde só um momento que eu vou chamar o médico. Senhora enfermeira!” – chamou a velha recepcionista – “Diga, Carlos. Oh, olá Wanderlev.”
“Olá senhora enfermeira.”
“Está com muito bom aspecto. Então o que o traz cá?”
“Fiquei a matutar no resultado das minhas análises. O que quer dizer isto?”
“Ah, é simples. O seu colesterol está óptimo.”
“Ainda bem. Andava aflito por causa desta falta de ar!”
“Ora, não se preocupe. Tem é que beber muita água, para manter essa bexiga em condições.”
“Isso eu tenho feito, desde que me deu aquela dor nos ossos.”
“Então adeus Wanderlev, que eu ainda tenho que mudar o óleo a uma motorizada que me trouxeram esta manhã.”
“Adeus e obrigado.”
Wanderlev saiu da clínica com um novo alento. Afinal não era um tumor.
Resolveu almoçar no café da D. Alice, onde sempre almoçava quando vinha à cidade. Parou à porta e pensou “Olha, vou experimentar comer aqui. Pode ser uma boa surpresa.”.
Sentou-se e o empregado aproximou-se. “Boa tarde. Quer que lhe traga a ementa?”
“Não, obrigado. Vou comer o costume.”
“Com certeza. Toma um aperitivo enquanto espera?”
“Bem pensado. Traga-me um café e uma água com gás.”
Era terça-feira, o dia de ir ao ginásio. Wanderlev sentia-se bem e resolveu ir um pouco mais cedo. “Aquilo amanhã deve estar cheio, ao sábado é sempre assim. Vou depois de almoço, às onze!” – pensou para si.
Entretanto o empregado chegava com o galão e o croissant misto. “Espero que esteja tudo bem.”
“Está, obrigado,” – Wanderlev gostava do seu croissant assim, só com manteiga.
Comeu com satisfação e resolveu então caminhar um pouco para digerir o farto almoço. Os chocos davam-lhe gases e ele não queria incomodar ninguém no ginásio.
Foi nesse momento que aconteceu algo que viria a mudar a sua vida para sempre, até então.
7, de 1 a 10.
Melhor momento:
«... para sempre, até então.»
Afixado por: Senhor Doutor em agosto 8, 2004 01:13 PMDeixa-me adivinhar... foi atropelado?
:o)
Bjs Mts